quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dos concursos, passando pelo mercado de trabalho, chegando ao "jeitinho"...

Vejo-me como um velejador do século XVI que arrisca tudo o que tem na busca por uma terra nova que lhe trará riquezas e compensará todos os seus sacrifícios. Ouço cidadãos que me dizem que essa jornada é por demais perigosa, e também ouço cidadãos que me incentivam a seguir em frente, dedicar tudo o que tenho (tempo, dinheiro, saúde) por essa conquista porque só assim conseguirei conquistar novos mundos. Quisera eu que algum dos dois lados estivesse certo :P

Se de um lado arriscar tudo não é certeza de sucesso, de outro, sabe-se que alcançar novos continentes é possível. Assim é com os concursos públicos, e assim é comigo que estou estudando para um...

Se os concursos não existissem eu estaria agora formado em mais uma graduação e me preparando calma, porém firmemente, para meu mestrado, mas por causa deles eu não fiz nenhum dos dois! Agora, resolvi arriscar minha poupança na esperança de ser recompensado - o que pode vir a não acontecer.

Se não houvesse os concursos haveria muito mais gente empreendendo novos negócios, pessoas adquirindo formação de aplicação prática, menos estudantes de direito e mais de engenharia, economia, contabilidade, medicina.

Mas a busca pelas vagas dos concursos é altamente justificável. Primeiramente, acredito que ninguém recebe aquilo que acredita que lhe seria justo; em segundo lugar, nem todo mundo consegue trabalho na área em que tem mais vocação - o que resulta em frustração; terceiro, e talvez o pior, na iniciativa privada a gente se depara com coisas que não nos fazem bem, que vão desde a convivência com sonegação de impostos e desrespeito a direitos trabalhistas até pressões por metas locas cujos critérios se baseiam pura e simplesmernte na sede por lucros por parte dos sócios.

E eu acho que essas condições de trabalho a que nos submetemos tem origem fundamentalmente em nossa cultura de não respeitarmos direitos e não cumprimos deveres. Exemplo: nos orgulhamos muito do "jeitinho brasileiro", não é verdade? A maneira "alternativa" de se resolver as coisas. Frauldar nosso imposto de renda não é um "jeitinho" que nós damos para pagar menos? Comprar objetos sem nota fiscal, só com o recibo não é outro tipo de "jeitinho"? Isso é sonegação de impostos, crime, com o qual nos indignamos quando vemos na tevê uma empresa fazendo e que sempre arrumamos uma justificativa para fazermos. Afinal, já pagamos tanto para o governo e não recebemos nada de volta... Essa praga abominável do "jeitinho" vai desde que somos crianças na escola e pedimos um ponto de graça para a professora nos aprovar, ou quando adolescentes saímos para as festas e arrumamos um "jeitinho" para tomar cerveja, ou quando íamos ao cinema com a carteira de estudante do colega para pagar meia.

A gente age fora das regras (porque não somos punídos, logo educados) desde criança, aprendemos a admirar o jeito mais fácil e muitas vezes menos correto de se fazer as coisas. Dá nisso! Agora reclamamos do não cumprimento de diversos DEVERES por parte do Estado, dos empregadores, e, sendo bem sinceros, continuamos a achar descuplas para o não cumprimento dos nossos.

Querem saber de uma história que engloba tudo isso?

Tenho uma conhecida bem atraente que estava sendo convidada para trabalhar na empresa de um coroa que está doido para traçar ela. Ela quer fazer o concurso do Banco do Brasil, mas mal sabe fazer uma conta de multiplicação ou escrever uma frase com dez palavras sem cometer erros. Perguntei a ela como ela conseguiu terminar o segundo grau. E ela respondeu:

- Ah, desde o primeiro ano do segundo grau eu mal ia às aulas, não gostava delas. Aí, no final de cada ano eu ficava ajudando a diretora com as matrículas, com a papelada lá. Então eu conversava com as professoras, pedia e elas davam um "jeitinho" de me passar.

"Jeitinho", "malandragem", ser "esperto"...

"Tem um ditado carioca que diz tudo: o problema do malandro é achar que todo mundo é otário!"

0 comentários:

Postar um comentário